(Des)fazer o Espaço no Cinema: Representações do arruinamento em Still Life de Jia Zhangke
artigo publicado na aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento — Vol. 13 N.º 1 (2026): Espaços “Periféricos” Contemporâneos da Imagem em Movimento.
Resumo: Neste ensaio propõe-se uma leitura crítica do filme Still Life (2006), de Jia Zhangke, a partir das representações do arruinamento no contexto das rápidas transformações provocadas pela abertura econômica da China. Associado à sexta geração do cinema chinês, Zhangke detém-se sobre espaços e sujeitos marginalizados pela modernização, revelando as contradições geradas pela globalização nas paisagens milenares e no tecido social do país. Ambientado na antiga Fengjie, cidade demolida e submersa pela construção da barragem das Três Gargantas, o filme desenvolve-se em torno de jornadas pessoais que atravessam um território em dissolução. Articulando teorias do cinema, do espaço e da memória, o ensaio analisa as múltiplas configurações do arruinamento na obra — materiais, sociais, simbólicas e subjetivas — por meio de conceitos como ruína, escombro, arruinamento, memória espacial, solastalgia e heterotopia. Destaca-se o modo como a prática cinematográfica de Zhangke conjuga urgência e lentidão: uma aproximação realista de registro do desaparecimento que dilata o tempo e resiste à temporalidade espetacular do capitalismo global, exibindo seus efeitos nefastos. Ao examinar o engajamento corporal dos personagens com os espaços arruinados, a análise investiga como a demolição, o deslocamento e a perda reconfiguram a experiência espacial individual e coletiva. O ensaio aborda ainda a natureza heterotópica dos lugares transitórios no filme, onde a vida cotidiana e o apagamento coexistem, criando zonas temporárias para o improviso de práticas espaciais alternativas. Ao justapor documentário, ficção e momentos de ruptura fantástica, Still Life oferece não somente uma representação da destruição, mas também uma meditação sobre a memória, a persistência e a sobrevida de lugares rompidos. O filme afirma-se, assim, como uma resposta crítica à violência do modelo dominante de desenvolvimento, reivindicando a lentidão como ferramenta para repensar o espaço, a noção de progresso e a subjetividade sob condições de acelerada transformação da paisagem. [Flora Paim]
Palavras-chave: Jia Zhangke, sexta geração do cinema chinês, ruína, escombro, urbanização chinesa.